Permanece

No intervalo entre um sono e outro, o tempo não anda, pesa. A casa acorda sem testemunhas, objetos guardam o que ninguém mais confirma.

Há vozes do lado de fora vivendo, e um corpo do lado de dentro que sente por compulsão. Dormir vira abrigo provisório, acordar, um território sem placas.

O dia não pede nada, a noite também não oferece. O afeto virou silêncio administrado, respostas curtas, presenças condicionais.

Tudo acontece longe, enquanto aqui o relógio apenas insiste. Um estrondo desmarcou o futuro, mas o relógio segue marcando.

Buscar amparo foi encontrar o gélido das portas, o eco de um sistema que não tem olhos. O instrumento descansa no exílio de quem foi apenas recurso.

O mundo caiu e os escombros continuam onde estão. Mas entre as ruínas, o corpo ainda acorda. E enquanto acorda, o dia não terminou de se escrever.

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