IV

Rotina.
Meu corpo age automaticamente, controlado pela responsabilidade das obrigações.
Enquanto isto, não estou onde você me vê.


Sorrio.
Mostro meus dentes, mas o acesso ao que minha alma sente não está aberto à explicações.

Na condução dos dias o lugar ao meu lado está vazio.
Vago em um  agora fora de hora que o relógio não marca e também nunca aconteceria.

Eu sei, não é fácil controlar os pensamentos, mas as cordas que manipulam os estímulos certos eu cortei, uma por uma, e junto delas foram-se as certezas.

Certezas? Já não existe nem vestígio! Marcas apagadas.
Meu coração é terra de ninguém.

Quando você me acordar, antes que tudo o que há pra dizer seja dito, eu saberei no seu olhar.

Dos seus lábios quero os seus beijos, e depois que eu voltar do universo para onde só sua  língua pode me transportar, me diga seu nome.

EDU LAZARO

I, II, III

I

No silêncio da palavra escrita
falei sobre dores e dúvidas.
Sussurrei, como o vento que corta,
e leva consigo versos
à procura de quem se importa...


II


Virtudes descritas,
perfis forjados à palavra digitada.
Procura-se:
quem não é alguém senão quem deveria ser...

Entidades manuscritas
perfiz, autenticadas à lavra dedicada.
Procura-se:
quem é alguém que pode vir a ser...

Na perfeição da superficialidade
não caibo, não me encaixo, não me forço:
sendo quem não sou, a máscara cairia.

III

Se me ferir é a via a seguir
sacrificando grande parte de mim,
aceito o desafio de conseguir;
sem tentar já falharia.

Na devoção à profundidade
não me inibo nem me rebaixo; me esforço.
Tendo bem definido quem sou, tentaria.
Praticando o que aprendi, maturidade.

EDU LAZARO


SIGNIFICANTE

da fala, o sujeito incerto
metaforizado no próprio pensamento
apropriado à sua vala-peito
entre o ser e o exceto e o enxerto...
EDU LAZARO


RELEMBRANÇAS

Drink bons sonhos:
uma dose de loucura
duas doses de carência
três doses de poesia.
Mistura bem com literatura
e pra descer suave, duas pedras de gelo.
Uma minha e a outra sua
pra diluir toda mundana indiferença...

Ela escreve à máquina de datilografar,
ama cartas, selos, papéis e correios.
Sente-se bem ao ler palavras manuscritas
e vive ansiosa pela visita do carteiro.

Não que o hoje não interesse,
mas é do ontem que somos agora
e o que foi antes é tão , mas tão,
mas tão elegante que me enamora.

Pessoas caladas gritam urgências,
caladas, falam com os olhos que sentem-se sós,
caladas, não aguentam esperar por mudança
e notam que quem muito fala, nem tudo sente.
Pessoas caladas percebem ao redor...

Talvez seja deprimente,
talvez ninguém entende
mas todos temos nosso lado obscuro,
e assumir nossos defeitos não nos faz indecentes...

Tudo o que eu preciso é de uma mentira
pra forjar um motivo de fazer de conta
que não faz sentido dizer que amo.

Faço de conta que não é comigo,
ando sem destino pra gastar a sola da vontade,
brigo com as paredes em busca de um inimigo;
já que é loucura encontrar sentido no que sinto...

Se chorar adiantasse, este mundo não teria terra pra pisar.
Se sorrir adiantasse, este mundo não ia anoitecer de tanto brilho de dentes.
Se reclamar adiantasse, este mundo teria que inventar outra sinceridade.
O esquema é olhar pouco pro relógio.

Daí você vira pra si mesmo
em silêncio
e se repreende como quem a uma criança diz:
-Quando você vai entender que não é não?

Todos os convites sem prazo pra acabar,
todas as flores sem prazo pra murchar,
todo chocolate sem prazo pra saborear
e todo verso pra te virar do avesso de tanto sonhar...

Daí você vira pros lados
e saca que é loucura;
a imaginação te deu sono
e no sono você imaginou demais...

Se lembrança fosse asa,
pensamento seria dívida.
Para cada conjunto de recordação,
um saciar mentiroso que quanto mais se alimenta,
mais fome consegue sentir:
tanta vontade que cresce com o tempo,
e envelhece casca antiga pintura;
eternidade que ronca na lembrança-cena.
EDU LAZARO