Anatomia de um flagelo

[Prólogo]
Há um limiar onde a dor vira estrutura. Este é o registro da travessia.

Janeiro
O ano começou como ruptura. Disseram recomeço. Abriu-se uma fenda.
A chuva cai faz dias, pesada, de madrugada, no silêncio ensurdecedor,
mas a combustão interna persiste mesmo com tanta água que insiste em vir
É pra apagar? É pra pagar? É cobrança do que não dá pra entregar?
Dorme-se mal. Acorda-se por acordar. O sono é promessa que não se cumpre.
O limiar se anuncia.

Cerco
Há os que chamam de obsessão. Há os que sentem como necessidade abissal.
Todos sobrevivendo de si mesmos, e aquele buraco horrendo por dentro consumindo.
O talvez é o que fica quando viram as costas e a dor finca.
Talvez o desespero seja o não reconhecido pedindo validação.
Uns veem invasão. Outros, sobrevivência. Seriam os dois ao mesmo tempo?
Cada um tentando não afundar em seus botes furados um pelo outro.
Mas quem decide onde termina o direito e começa a transgressão?
O vazio permanece. O vital foi retirado e o tempo foi perdido.
O limiar se atravessa.

Exclusão
Isolamento. Ergueram barreiras, fecharam acesso. Cheios de suas razões.
Talvez por necessidade deles. Se não está às vistas, não saber também dói menos.
Talvez por incapacidade de reconhecer, enterrados na própria areia dentro de uma ampulheta.
Cada um protegendo o que pode, como pode, sem saber bem como nem o quê, mas seu.
E se foi construída essa distância e agora se nomeia abandono?
paga o preço do carimbo das horas gastas?
Proteção interpretando rejeição como falha do mundo,
não como resposta de gritos a um surdo.
O limiar se confirma.

Carnificina
O corpo virou receptáculo do que sobrou. Cada dia há menos. Cada noite não se refaz.
A privação tornou-se rotina, vai sendo absorvida até chegar no limiar da combustão.
O tempo comprime até perder-se na química da solução.
O sofrimento vira teatro com que o outro lida com descaso.
A identidade construída sobre o discurso de quem se cansa piora o cansado.
O limiar se habita.

Deserto
Perder o essencial. Ou nunca ter tido legitimidade sobre o que nasceu?
Erosão que se expande diariamente. Culpa e arrependimento que não resolvem nada.
Entre o sistema nervoso em alerta e a química que atenua,
apenas o suficiente para funcionalidade básica não é o suficiente pra atravessar a si mesmo.
Sozinho, sempre sozinho.
E a chuva parou. Mas a combustão permanece.
O limiar se expande.

Brutal
Matéria exposta simulando integridade. É banal falar-se do óbvio, então funciona.
Amparando aos que precisam, enquanto quem ampara está sempre a par.
Cada um dando de si pra assimilar, ou desistindo porque o processo não é mágica, é orgânico, exige vínculo consigo próprio.
Esgotado de manter a performance, persiste-se. Diariamente persiste-se.
Mas a dor, persiste por si. Está fora dos ponteiros, resiste.
E talvez isso não seja mais um aviso. Seja apenas parte do que aguarda após a interrupção.
O limiar se torna morada.

[Epílogo]
A travessia não termina. Só se aprende a caminhar na ferida.

EDU LAZARO

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