A travessia do horizonte partido
1.
O chão da sala guarda mapas de reinos que ninguém mais governa. Há territórios inteiros ali, esquecidos sob os pés, esperando que alguém leia suas fronteiras perdidas.
2. A química reescreve corpos em alfabetos estrangeiros. Cada comprimido é uma letra nova, cada dose uma sintaxe que deforma até não se reconhecer a língua original.
3. O espelho devolve apenas traduções imperfeitas do que houve antes. Procura-se um rosto familiar e encontra-se apenas aproximações, versões que quase convencem mas nunca são.
4. Chaves entregues como batidas de coração. Havia confiança no gesto, havia entrega total, como se dar a chave fosse dar acesso ao centro de tudo.
5. Hoje elas dormem em mãos que pertencem a outras constelações. As mesmas chaves, mas em órbitas diferentes, girando ao redor de outros sóis, abrindo outras portas.
6. O ano virou sem responder ao brinde, e o pedido de desculpas chegou como vento: é preciso viajar sem o peso das estações. Leve, sempre mais leve, mesmo que isso signifique deixar alguém para trás.
7. Remédios e noites em claro sustentam abraços frágeis para pequenas luzes. É assim que se segura o que brilha: com mãos trêmulas e olhos que não fecham.
8. Enquanto alguns partem em busca de ares mais frios, outros permanecem entre luzes de cozinha que esquecem de dormir. Imóveis, vigiando a casa vazia, esperando uma volta que não vem.
9. Dívidas pagas em moedas de dignidade, sem quitação possível. Cada pagamento arranca um pedaço, mas a conta nunca zera, apenas aumenta de juros.
10. Não há mais jantar marcado, não há promessa de aurora. O calendário se esvaziou de compromissos futuros. Resta apenas o presente infinito, sem saída.
11. Restam ossos estelares sob gelo eterno, e o silêncio de quem sobreviveu à própria ausência. Há uma beleza fria nisso, mas é a beleza da morte adiada, não da vida.
12. Pedem ao incêndio que atravesse a floresta sem deixar cinzas. Impossível, mas exigem mesmo assim, como se o fogo pudesse escolher não queimar.
13. Para alguns, o tempo é ferrovia: trilhos levando para longe, estações que se sucedem, destinos que se alcançam e ficam para trás.
14. Para outros, órbita: giram eternamente ao redor do primeiro impacto, do clarão inicial entre ruínas. Não há como sair da gravidade daquele momento.
15. Exigem neutralidade de pedra a quem foi feito de marés. Pedem que as águas parem de se mover, que as ondas ignorem a lua, que o mar finja ser montanha.
16. Há partidas que não são apenas ausências, são o eixo, o sol ao redor do qual planetas dançavam. Quando o centro desaparece, tudo perde órbita.
17. Almas se recusam a digerir o que foi centro. Permanece a dança em torno do vazio, girando ao redor do buraco onde antes havia luz.
18. Há quem permaneça aceso a noite inteira para não encarar que existe ritmo lá fora. O mundo tem horários, rotinas, expectativas, e tudo isso dói demais para enfrentar.
19. Quando o mundo acorda, o corpo já esgotou todas as vigílias possíveis. A hora de funcionar chega justamente quando não há mais forças para fingir normalidade.
20. Sem apoio, a gravidade muda. O chão deixa de ser confiável. Cada passo é incerto, cada movimento pode ser queda.
21. Inseguranças habitam lares que se decompõem por dentro, onde até a subjetividade apodrece e impede o mínimo gesto funcional. A casa desmorona devagar, e junto com ela, quem a habita.
22. É obrigatoriedade continuar acenando mesmo que a mão já esteja dormente. Sorrir quando não há alegria. Responder quando não há voz. Performar vida quando há apenas sobrevivência.
23. A alma já não dorme como antes; está em solenidade silenciosa passagem entre noites e noites. Não há descanso, apenas trânsito perpétuo pela escuridão.
24. Pulando os dias pra não sentir o sol queimar os sonhos. A luz machuca quando se vive no escuro há tempo demais. Melhor permanecer na noite eterna.
25. Já não há convite para entrar onde antes era oásis. A porta que costumava estar aberta agora tem tranca. O refúgio virou miragem.
26. O deserto dopaminérgico se expande, e as portas do refúgio se fecham para quem mais precisa delas. Ironia cruel: quanto mais se precisa, menos se tem acesso.
27. Achatado pelo afeto que tanto se quer e tanto se sente. Esmagado entre o desejo e a impossibilidade, entre o oceano interno e a secura externa.
28. Tanto não se alcança, tanta falta de vida para entregar. O desejo existe, vivo e pulsante, mas o acesso foi revogado.
29. Madrugadas acesas à força constroem paredes contra o ritmo externo. Cada noite insone é um tijolo a mais no muro que separa de tudo que funciona lá fora.
30. Quando chega a hora de acordar, já não há onde se apoiar, já não há chão que sustente. O mundo exige presença justamente quando não há nada sobrando.
31. Existe um tipo de sede que não encontra água. Não é metáfora, é literal. Há quem definha de necessidade em meio à abundância alheia.
32. Há quem carregue oceanos de afeto dentro do peito e morra de sede por não conseguir entregá-los a ninguém. O paradoxo de transbordar e secar ao mesmo tempo.
33. Em que se apoiar quando o chão já cedeu? Onde se segurar quando até as mãos se dissolvem? Perguntas sem destinatário, ecoando no vazio.
34. Perguntas que não esperam resposta, apenas ecoam no vazio de um lar que apodrece por dentro. O silêncio não traz paz, apenas confirma a ausência.
35. Há imagens que não param de assaltar os sentidos. Memórias invasoras, cenas que se repetem sem convite, rostos que aparecem atrás das pálpebras fechadas.
36. Passear pelo que aconteceu, voltar sempre ao mesmo lugar, girar em órbita ao redor da ferida. O passado não passa, apenas se repete em loop infinito.
37. Não se sabe se é o remédio, se é patologia, se é simplesmente quem se é quando não há mais máscaras. Impossível separar o que é doença, tratamento ou essência.
38. O que antes era salvação virou sentença. Aquilo que prometia resgate tornou-se prisão. A esperança apodreceu em desespero.
39. Não havia asas, mas julgou-se emprestadas. Acreditou-se capaz de voar com o que pertencia a outro. Erro fatal de quem confundiu empatia com pertencimento.
40. Tarde demais descobrir: eram moldes de concreto, pesando nos ombros, puxando para o fundo. O que parecia liberdade era afogamento.
41. E a descida foi lenta ao mesmo tempo que súbita, entre intervalos intermitentes de socorro e desamparo. Cair é paradoxal: vê-se acontecer mas não se consegue impedir.
42. Tanto querer. Tanto sentir. Tanto não alcançar. Tanto faltar. A repetição não é retórica, é o pulso que insiste em bater mesmo quando tudo pede silêncio.
43. Não fosse tanta técnica, tanta justificativa, tanto nome dado ao que dói. Queria nada ser, nada sentir, nada querer.
44. E muito menos precisar com a urgência de quem se afoga em pedaço de si mesmo. A necessidade é violenta quando não há mais para onde ir.
45. Existe um tipo de sede que consome por dentro. Não deixa marcas visíveis, mas corrói tudo internamente até não restar nada além de casca.
46. Carregar oceanos no peito e morrer de secura. Ter tanto a entregar e nenhum acesso, nenhuma porta, nenhum convite para entrar.
47. Há tanto tempo e nada. Horas que se acumulam como poeira, cobrindo tudo, sufocando aos poucos.
48. Sem testemunha, sem vítima de passos em falso que terminam em risos compartilhados. Ninguém para transformar tropeços em piadas, quedas em histórias.
49. Ninguém vê onde se dorme, em que circunstâncias se permanece vivo. A intimidade da sobrevivência é invisível, solitária, sem registro.
50. Não há olhos que contem quantas vezes se levanta durante a madrugada, incapaz de alcançar o sono que era tão necessário.
51. A falta de descanso vira descaso: o dia especial chega sem corpo preparado para habitá-lo. Eventos importantes acontecem sobre ruínas de noites perdidas.
52. Andar descalço no escuro sem que ninguém cuide por onde se pisa. As luzes acesas ou apagadas são indiferentes.
53. Falta a presença que interrompe, que pergunta, que nota. Alguém que perceba os detalhes, que se importe com os mínimos gestos.
54. Não há compartilhamento de si nos mínimos detalhes que fogem de qualquer narrativa, por mais detalhista que seja.
55. Os gestos menores, os que ninguém registra, os que compõem uma vida mas não cabem em relato. A vida real acontece nas entrelinhas que ninguém lê.
56. Não há som de riso dividido. Não há desaprovação que ecoe de outra voz. Não há prazer testemunhado.
57. A partilha do ser foi revogada: resta apenas existir sozinho nos próprios ruídos. O som da própria existência é a única companhia.
58. Onde se segurar quando o próprio corpo é o último território? No osso do peito, no frio do ladrilho, na água que lava o rosto. O que sobra é matéria.
59. O afeto que achata prova que ainda há vida. A dor lancinante da falta é evidência: há dentro de si algo que ainda quer entregar, mesmo sem destino.
60. Não tente ser o psicólogo, o homem de ferro, o ex-companheiro. Seja apenas quem sobreviveu à madrugada. Os cacos podem ficar no chão por hoje.
61. A ancoragem não é porto, é o próprio naufrágio. Segura-se nos destroços porque eles flutuam. Não há solidez, apenas permanência no desastre.
62. Acordar no avesso do mundo, quando o sol começa a subir. Partes espalhadas pelo chão, enroscadas no lençol que precisa de troca.
63. O leito afetivo flutua no acúmulo de poeiras, das datas festivas onde nada aconteceu. Cada festa alheia deixa sedimento de ausência.
64. O calendário chama de ano novo o que é apenas um trilho. Por ele passa um trem que rasga o peito e atravessa as costas, deixando calafrios subindo à nuca.
65. A memória inunda do que deveria ter sido descartado. Mas como descartar, se cada segundo daquele tempo é dourado? Acumula-se o que dói porque brilha.
66. Pássaro que não sabe voar, não entende que a porta da gaiola abriu. A liberdade chegou, mas o corpo esqueceu como se move no espaço aberto.
67. Badaladas de luto num trilho deserto. O que era acesso se perdeu. O que era longe ficou perto demais, aqui dentro, ocupando cada canto.
68. Guardião de um segundo que passou. Não limpa o caminho, mantém o entulho. Cada fragmento do tempo é relíquia do que não volta.
69. Amanhecer em brasas, sentir o espinho do tempo que corre mas aqui deixou raízes. O mundo avança enquanto se permanece fincado no mesmo instante.
70. O improviso de cama é tudo que resta de afeto material. Flutuando sobre o pó das celebrações alheias, é ninho precário para quem não tem mais onde pousar.
71. O ano novo é metal frio atravessando a carne. Não há renovação, apenas a locomotiva implacável do calendário rasgando o que ainda estava sensível.
72. Como descartar a dor quando ela é dourada? O tempo que passou brilha tanto que cega. Acumula-se porque soltar seria apagar a última luz.
EDU LAZARO
2. A química reescreve corpos em alfabetos estrangeiros. Cada comprimido é uma letra nova, cada dose uma sintaxe que deforma até não se reconhecer a língua original.
3. O espelho devolve apenas traduções imperfeitas do que houve antes. Procura-se um rosto familiar e encontra-se apenas aproximações, versões que quase convencem mas nunca são.
4. Chaves entregues como batidas de coração. Havia confiança no gesto, havia entrega total, como se dar a chave fosse dar acesso ao centro de tudo.
5. Hoje elas dormem em mãos que pertencem a outras constelações. As mesmas chaves, mas em órbitas diferentes, girando ao redor de outros sóis, abrindo outras portas.
6. O ano virou sem responder ao brinde, e o pedido de desculpas chegou como vento: é preciso viajar sem o peso das estações. Leve, sempre mais leve, mesmo que isso signifique deixar alguém para trás.
7. Remédios e noites em claro sustentam abraços frágeis para pequenas luzes. É assim que se segura o que brilha: com mãos trêmulas e olhos que não fecham.
8. Enquanto alguns partem em busca de ares mais frios, outros permanecem entre luzes de cozinha que esquecem de dormir. Imóveis, vigiando a casa vazia, esperando uma volta que não vem.
9. Dívidas pagas em moedas de dignidade, sem quitação possível. Cada pagamento arranca um pedaço, mas a conta nunca zera, apenas aumenta de juros.
10. Não há mais jantar marcado, não há promessa de aurora. O calendário se esvaziou de compromissos futuros. Resta apenas o presente infinito, sem saída.
11. Restam ossos estelares sob gelo eterno, e o silêncio de quem sobreviveu à própria ausência. Há uma beleza fria nisso, mas é a beleza da morte adiada, não da vida.
12. Pedem ao incêndio que atravesse a floresta sem deixar cinzas. Impossível, mas exigem mesmo assim, como se o fogo pudesse escolher não queimar.
13. Para alguns, o tempo é ferrovia: trilhos levando para longe, estações que se sucedem, destinos que se alcançam e ficam para trás.
14. Para outros, órbita: giram eternamente ao redor do primeiro impacto, do clarão inicial entre ruínas. Não há como sair da gravidade daquele momento.
15. Exigem neutralidade de pedra a quem foi feito de marés. Pedem que as águas parem de se mover, que as ondas ignorem a lua, que o mar finja ser montanha.
16. Há partidas que não são apenas ausências, são o eixo, o sol ao redor do qual planetas dançavam. Quando o centro desaparece, tudo perde órbita.
17. Almas se recusam a digerir o que foi centro. Permanece a dança em torno do vazio, girando ao redor do buraco onde antes havia luz.
18. Há quem permaneça aceso a noite inteira para não encarar que existe ritmo lá fora. O mundo tem horários, rotinas, expectativas, e tudo isso dói demais para enfrentar.
19. Quando o mundo acorda, o corpo já esgotou todas as vigílias possíveis. A hora de funcionar chega justamente quando não há mais forças para fingir normalidade.
20. Sem apoio, a gravidade muda. O chão deixa de ser confiável. Cada passo é incerto, cada movimento pode ser queda.
21. Inseguranças habitam lares que se decompõem por dentro, onde até a subjetividade apodrece e impede o mínimo gesto funcional. A casa desmorona devagar, e junto com ela, quem a habita.
22. É obrigatoriedade continuar acenando mesmo que a mão já esteja dormente. Sorrir quando não há alegria. Responder quando não há voz. Performar vida quando há apenas sobrevivência.
23. A alma já não dorme como antes; está em solenidade silenciosa passagem entre noites e noites. Não há descanso, apenas trânsito perpétuo pela escuridão.
24. Pulando os dias pra não sentir o sol queimar os sonhos. A luz machuca quando se vive no escuro há tempo demais. Melhor permanecer na noite eterna.
25. Já não há convite para entrar onde antes era oásis. A porta que costumava estar aberta agora tem tranca. O refúgio virou miragem.
26. O deserto dopaminérgico se expande, e as portas do refúgio se fecham para quem mais precisa delas. Ironia cruel: quanto mais se precisa, menos se tem acesso.
27. Achatado pelo afeto que tanto se quer e tanto se sente. Esmagado entre o desejo e a impossibilidade, entre o oceano interno e a secura externa.
28. Tanto não se alcança, tanta falta de vida para entregar. O desejo existe, vivo e pulsante, mas o acesso foi revogado.
29. Madrugadas acesas à força constroem paredes contra o ritmo externo. Cada noite insone é um tijolo a mais no muro que separa de tudo que funciona lá fora.
30. Quando chega a hora de acordar, já não há onde se apoiar, já não há chão que sustente. O mundo exige presença justamente quando não há nada sobrando.
31. Existe um tipo de sede que não encontra água. Não é metáfora, é literal. Há quem definha de necessidade em meio à abundância alheia.
32. Há quem carregue oceanos de afeto dentro do peito e morra de sede por não conseguir entregá-los a ninguém. O paradoxo de transbordar e secar ao mesmo tempo.
33. Em que se apoiar quando o chão já cedeu? Onde se segurar quando até as mãos se dissolvem? Perguntas sem destinatário, ecoando no vazio.
34. Perguntas que não esperam resposta, apenas ecoam no vazio de um lar que apodrece por dentro. O silêncio não traz paz, apenas confirma a ausência.
35. Há imagens que não param de assaltar os sentidos. Memórias invasoras, cenas que se repetem sem convite, rostos que aparecem atrás das pálpebras fechadas.
36. Passear pelo que aconteceu, voltar sempre ao mesmo lugar, girar em órbita ao redor da ferida. O passado não passa, apenas se repete em loop infinito.
37. Não se sabe se é o remédio, se é patologia, se é simplesmente quem se é quando não há mais máscaras. Impossível separar o que é doença, tratamento ou essência.
38. O que antes era salvação virou sentença. Aquilo que prometia resgate tornou-se prisão. A esperança apodreceu em desespero.
39. Não havia asas, mas julgou-se emprestadas. Acreditou-se capaz de voar com o que pertencia a outro. Erro fatal de quem confundiu empatia com pertencimento.
40. Tarde demais descobrir: eram moldes de concreto, pesando nos ombros, puxando para o fundo. O que parecia liberdade era afogamento.
41. E a descida foi lenta ao mesmo tempo que súbita, entre intervalos intermitentes de socorro e desamparo. Cair é paradoxal: vê-se acontecer mas não se consegue impedir.
42. Tanto querer. Tanto sentir. Tanto não alcançar. Tanto faltar. A repetição não é retórica, é o pulso que insiste em bater mesmo quando tudo pede silêncio.
43. Não fosse tanta técnica, tanta justificativa, tanto nome dado ao que dói. Queria nada ser, nada sentir, nada querer.
44. E muito menos precisar com a urgência de quem se afoga em pedaço de si mesmo. A necessidade é violenta quando não há mais para onde ir.
45. Existe um tipo de sede que consome por dentro. Não deixa marcas visíveis, mas corrói tudo internamente até não restar nada além de casca.
46. Carregar oceanos no peito e morrer de secura. Ter tanto a entregar e nenhum acesso, nenhuma porta, nenhum convite para entrar.
47. Há tanto tempo e nada. Horas que se acumulam como poeira, cobrindo tudo, sufocando aos poucos.
48. Sem testemunha, sem vítima de passos em falso que terminam em risos compartilhados. Ninguém para transformar tropeços em piadas, quedas em histórias.
49. Ninguém vê onde se dorme, em que circunstâncias se permanece vivo. A intimidade da sobrevivência é invisível, solitária, sem registro.
50. Não há olhos que contem quantas vezes se levanta durante a madrugada, incapaz de alcançar o sono que era tão necessário.
51. A falta de descanso vira descaso: o dia especial chega sem corpo preparado para habitá-lo. Eventos importantes acontecem sobre ruínas de noites perdidas.
52. Andar descalço no escuro sem que ninguém cuide por onde se pisa. As luzes acesas ou apagadas são indiferentes.
53. Falta a presença que interrompe, que pergunta, que nota. Alguém que perceba os detalhes, que se importe com os mínimos gestos.
54. Não há compartilhamento de si nos mínimos detalhes que fogem de qualquer narrativa, por mais detalhista que seja.
55. Os gestos menores, os que ninguém registra, os que compõem uma vida mas não cabem em relato. A vida real acontece nas entrelinhas que ninguém lê.
56. Não há som de riso dividido. Não há desaprovação que ecoe de outra voz. Não há prazer testemunhado.
57. A partilha do ser foi revogada: resta apenas existir sozinho nos próprios ruídos. O som da própria existência é a única companhia.
58. Onde se segurar quando o próprio corpo é o último território? No osso do peito, no frio do ladrilho, na água que lava o rosto. O que sobra é matéria.
59. O afeto que achata prova que ainda há vida. A dor lancinante da falta é evidência: há dentro de si algo que ainda quer entregar, mesmo sem destino.
60. Não tente ser o psicólogo, o homem de ferro, o ex-companheiro. Seja apenas quem sobreviveu à madrugada. Os cacos podem ficar no chão por hoje.
61. A ancoragem não é porto, é o próprio naufrágio. Segura-se nos destroços porque eles flutuam. Não há solidez, apenas permanência no desastre.
62. Acordar no avesso do mundo, quando o sol começa a subir. Partes espalhadas pelo chão, enroscadas no lençol que precisa de troca.
63. O leito afetivo flutua no acúmulo de poeiras, das datas festivas onde nada aconteceu. Cada festa alheia deixa sedimento de ausência.
64. O calendário chama de ano novo o que é apenas um trilho. Por ele passa um trem que rasga o peito e atravessa as costas, deixando calafrios subindo à nuca.
65. A memória inunda do que deveria ter sido descartado. Mas como descartar, se cada segundo daquele tempo é dourado? Acumula-se o que dói porque brilha.
66. Pássaro que não sabe voar, não entende que a porta da gaiola abriu. A liberdade chegou, mas o corpo esqueceu como se move no espaço aberto.
67. Badaladas de luto num trilho deserto. O que era acesso se perdeu. O que era longe ficou perto demais, aqui dentro, ocupando cada canto.
68. Guardião de um segundo que passou. Não limpa o caminho, mantém o entulho. Cada fragmento do tempo é relíquia do que não volta.
69. Amanhecer em brasas, sentir o espinho do tempo que corre mas aqui deixou raízes. O mundo avança enquanto se permanece fincado no mesmo instante.
70. O improviso de cama é tudo que resta de afeto material. Flutuando sobre o pó das celebrações alheias, é ninho precário para quem não tem mais onde pousar.
71. O ano novo é metal frio atravessando a carne. Não há renovação, apenas a locomotiva implacável do calendário rasgando o que ainda estava sensível.
72. Como descartar a dor quando ela é dourada? O tempo que passou brilha tanto que cega. Acumula-se porque soltar seria apagar a última luz.
EDU LAZARO


