RELEMBRANÇAS






Drink bons sonhos:

uma dose de loucura
duas doses de carência
três doses de poesia.
Mistura bem com literatura
e pra descer suave, duas pedras de gelo.
Uma minha e a outra sua
pra diluir toda mundana indiferença...

Ela escreve à máquina de datilografar,
ama cartas, selos, papéis e correios.
Sente-se bem ao ler palavras manuscritas
e vive ansiosa pela visita do carteiro.

Não que o hoje não interesse,
mas é do ontem que somos agora
e o que foi antes é tão , mas tão,
mas tão elegante que me enamora.

Pessoas caladas gritam urgências,
caladas, falam com os olhos que sentem-se sós,
caladas, não aguentam esperar por mudança
e notam que quem muito fala, nem tudo sente.
Pessoas caladas percebem ao redor...

Talvez seja deprimente,
talvez ninguém entende
mas todos temos nosso lado obscuro,
e assumir nossos defeitos não nos faz indecentes...

Tudo o que eu preciso é de uma mentira
pra forjar um motivo de fazer de conta
que não faz sentido dizer que amo.

Faço de conta que não é comigo,
ando sem destino pra gastar a sola da vontade,
brigo com as paredes em busca de um inimigo;
já que é loucura encontrar sentido no que sinto...

Se chorar adiantasse, este mundo não teria terra pra pisar.
Se sorrir adiantasse, este mundo não ia anoitecer de tanto brilho de dentes.
Se reclamar adiantasse, este mundo teria que inventar outra sinceridade.
O esquema é olhar pouco pro relógio.

Daí você vira pra si mesmo
em silêncio
e se repreende como quem a uma criança diz:
-Quando você vai entender que não é não?

Todos os convites sem prazo pra acabar,
todas as flores sem prazo pra murchar,
todo chocolate sem prazo pra saborear
e todo verso pra te virar do avesso de tanto sonhar...

Daí você vira pros lados
e saca que é loucura;
a imaginação te deu sono
e no sono você imaginou demais...

Se lembrança fosse asa,
pensamento seria dívida.
Para cada conjunto de recordação,
um saciar mentiroso que quanto mais se alimenta,
mais fome consegue sentir:
tanta vontade que cresce com o tempo,
e envelhece casca antiga pintura;
eternidade que ronca na lembrança-cena.
EDU LAZARO